Impeachment não, descentralização sim.

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Jornalistas atacam monopólio da mídia em debate sobre crise política.

O Brasil passa por um momento histórico delicado, em que características adormecidas da política vêm a tona, evidenciando a farsa democrática - comandada pelo grande capital - na qual estamos inseridos. O sistema político no Brasil serve aos interesses de empresas (a maioria delas multinacionais ou bancos) que financiam campanhas de pessoas propositadamente sem preparo e obedientes às sua ordens. Não é de hoje que se pratica o patrimonialismo e o nepotismo no Brasil perante os olhos de todos sem a menor preocupação.

O monopólio midiático que constrói a narrativa consumida pela massa é um dos principais pilares da oligarquia historicamente dominante no Brasil. Conspiram para conservar o poder em suas mãos e apoiam uma manobra nitidamente forçada e permitida pelo Estado para atender os interesses do grande capital. A grande maioria dos deputados demonstrou seus interesses pessoais ontem na votação do impeachment na Câmara. Pouco se falou das acusações no processo de impeachment. As justificativas giravam em torno de Deus e família, o que envergonha e frustra qualquer um que contribua compulsoriamente com o Estado (impostos). O mais absurdo é que mais da metade dos deputados que votaram a favor do impeachment estão sendo investigados; e o presidente da casa, Eduardo Cunha, é réu no STF.

A descentralização do poder e o colaborativismo político, sem ser partidário, são urgentes, assim como a descentralização da comunicação, que, com a centralizada disposição atual, entra nas casas de milhares de brasileiros todos os dias com alto poder hipnótico. Querem mudar para manter tudo como sempre foi, nas mãos dos que sempre exploraram nossas riquezas em parceria com capital estrangeiro. A centralização do poder sob dominio dos hipócritas é o grande perigo que ameça a soberania do povo, o qual sofre golpes diários da farsa democrática anunciada pelos canais de TV.

A seguir um texto com mais informações sobre o tema:

por Helder Lima, da RBA

São Paulo – "Não podemos deixar que só uma mídia fale por nós", afirmou o jornalista Miguel do Rosário, do blog O Cafezinho. "As redes sociais estão esvaziando a narrativa do golpe. Estamos conseguindo amanhecer o país dessa treva com a qual a Globo quis subjugar a nação brasileira", disse a jornalista Laura Capriglione, do coletivo Jornalistas Livres.

Quem passou ontem (12) no início da noite pela Praça do Patriarca, centro de São Paulo, pôde acompanhar um debate sobre o papel da mídia na crise política do país, que nesta semana se aglutina com a votação do processo de impeachment pelo plenário da Câmara, no domingo (17). O ato, chamado de "Comunicação em Defesa da Democracia", foi realizado pela Frente Brasil Popular, que representa mais de 60 organizações do campo progressista, e reuniu jornalistas da mídia alternativa para falar sobre o papel da comunicação na conjuntura em que forças conservadoras pretendem destituir a presidenta Dilma Rousseff.

As críticas à concentração de mídia no país, nas mãos de poucas famílias; o reinado da Rede Globo sobre a formação de consciência do público, processo que vem sendo questionado pela mídia alternativa e movimentos sociais por meio das redes sociais; e a mídia tradicional como articuladora do golpe em marcha foram os aspectos que permearam as falas dos jornalistas.

"A mídia se arvora o papel de paladino da ética, mas é mentira, porque ela seleciona os adversários que ela quer destruir, seleciona o que quer segundo os seus interesses", disse Miguel do Rosário, ao criticar o problema da concentração de mídia no país. "Na Europa, tem programas de assistência social maiores que os do governo Lula", comentou sobre a dificuldade que o público tem de receber informação diversificada dos meios de comunicação.

Rosário também falou sobre o caso Panama Papers, uma série de investigações que envolvem evasão de divisas por milionários em paraísos fiscais, divulgados pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ). Ele destacou a presença do nome da Rede Globo no caso. "O problema é quando as empresas de mídia, elas mesmas, estão envolvidas em escândalos. Quem vai investigá-las, quem vigia os vigilantes?", indagou.

O jornalista frisou que "a imprensa não pode ter poder absoluto". E afirmou que diante disso surge o pode investigativo dos blogs, que podem esclarecer sobre a sonegação da imprensa. "E agora com o caso Panama Papers surge a Globo, que tem o modus operandi de trabalhar com empresas offshore. Os bilionários botam dinheiro em paraísos fiscais. Off-shore é palavra para enganar pobre. O Brasil é o país com a maior taxa de sonegação fiscal do mundo. No Primeiro Mundo, você tem combate à sonegação; aqui o judiciário é cúmplice por omissão da sonegação. E tem uma cumplicidade entre a mídia e o judiciário. Ela encobre a violência policial, que fica impune para continuar praticando crimes", afirmou.

Na evasão investigada pelo Panama Papers, podem estar envolvidos os direitos de transmissão de jogos de futebol. "A Globo compra os direitos da transmissão de jogos, ela joga o dinheiro em paraísos fiscais e não paga impostos. Temos de investir em meios alternativos para conduzir investigações jornalísticas", disse Rosário.

No caso do Panamá Papers, as informações ficaram nas mãos de jornalistas do Uol, Estadão e Rede TV!. "É estranho, quem vai investigar? Eles vão usar isso politicamente só para a narrativa da grande imprensa. Temos de incentivar meios independentes, por fora da grande mídia, que chegou a um ponto em que se tornou praticamente delinquente e é agora o centro do golpe".

Rosário também informou que os jornalistas independentes estão se organizando para prestar informações sobre o Brasil a comunidades internacionais. A iniciativa chama-se Brigada Herzog: "Estamos tentando subsidiar a imprensa fora, dando uma outra visão sobre o que acontece no Brasil. Temos de criar uma ponte para veicular essas denúncias lá fora".

A jornalista Laura Capriglione disse que a Globo é um grande drama para a democracia do país. "Pela primeira vez não estamos falando sozinhos contra a Rede Globo, e isso é um problema para a democracia. A torcida do Corinthians denunciando a Globo, isso é fundamental. Estamos vendo como os evangélicos, por exemplo, não se sentem representados pela Globo", afirmou a jornalista.

"Quem não se lembra da prisão do bispo Edir Macedo? A cobertura é incrivelmente parecida com a forma que eles apresentam do Partido dos Trabalhadores. É a mesma coisa, e tem gente desconfiada da Rede Globo. Pela primeira vez na história, as pessoas desconfiam, 'será que é verdade?' Eu acho que para isso colaborou o trabalho de cada um nas redes sociais", afirmou Laura.

A jornalista disse que existe uma disputa pela narrativa que representa a realidade na sociedade contemporânea. "As maquininhas (referindo-se aos smartphones) permitem que a gente dispute a narrativa. Em 2014, as redes sociais ajudaram a garantir a vitória de Dilma no segundo turno. E agora também. Nós somos produtores de conteúdo, cada um de nós é capaz de ser jornalista. Com a Rede Globo, era um lado só, mas aí surgem as redes sociais. Nós podemos e devemos ser produtores e transmissores desse conteúdo". E ao concluir, disse: "Nossa dificuldade é maior (enquanto jornalistas independentes), mas temos a coragem do povo e a vontade de vencer. Não vamos entregar a democracia que nos custou tanto".

O jornalista do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) Rafael Soriano indagou sobre a responsabilidade da mídia na morte de dois sem-terra no acampamento Dom Tomás Balduíno, no Paraná, na quinta-feira (7), com uma emboscada da Polícia Militar e de seguranças da Araupel, empresa que também ocupa a área. Soriano lembrou que a área em questão é pública, e foi invadida pela empresa. "Depois de muitas ameaças, chegamos a esse estopim na semana passada. Não é um caso isolado. O povo sem-terra tem se organizado para resistir ao golpe pelo partido da imprensa, que coloca em curso um golpe à nossa democracia", afirmou.

O jornalista do MST também lembrou de outra vítima do golpe, o presidente do PT em Mogeiro, no agreste paraibano, Ivanildo Francisco da Silva, assassinado na quarta-feira (6) com um tiro de espingarda dentro de casa, no assentamento Padre João Maria. "Esse recrudescimento da violência não é à toa, é uma articulação da elite para enfrentar quem tem capacidade de barrar esse golpe", afirmou.

A coordenadora do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, Rosane Bertotti, defendeu a regulamentação da mídia para a sociedade brasileira superar o atual estágio de concentração e desinformação. "Este é o grande momento em que temos de aprender a jogar o xadrez da comunicação", disse. "A comunicação está junto com a história da democracia. Não é uma questão só para jornalistas, tem a ver com nossas vidas, com o direito de viver", afirmou. "Precisamos recuperar o debate sobre a comunicação pública", disse ainda, considerando a necessidade de regulamentação prevista na Constituição de 1988 e que até hoje não foi realizada.


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